Ano da Fé – XLVIII

CREIO NO ESPÍRITO SANTO – II

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Significativamente, o Espírito é mencionado na abertura e encerramento da Bíblia. Toda a história, desde a criação até à realização final, se desenrola sob o influxo do poderoso “sopro” de Deus. O Espírito é a omnipotência do amor com que Deus realiza o seu projecto no mundo: que produz as coisas, dá a vida, suscita os profetas, justifica os pecadores, faz ressuscitar os mortos.

No Novo Testamento, com a vinda e a obra de Jesus, o Espírito de Deus está presente. O anjo da Anunciação anuncia que o Espírito virá sobre a Virgem Maria, de tal modo que aquele que vai nascer dela “será santo e chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Mais tarde, no baptismo de Jesus, os céus abrem-se e Jesus vê o Espírito de Deus descer como uma pomba sobre ele (cf. Mt 3, 16). É o Espírito que o conduz ao deserto e é pela força do Espírito que resiste ao tentador. Toda a sua acção, a autoridade da sua Palavra, os milagres como os gestos mais simples que ele realiza, são obra deste Espírito que Deus lhe dá “sem medida” (Jo 3, 34).

Este Espírito, Jesus prometeu-o aos seus discípulos no momento de os deixar: “Pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor que estará sempre convosco: o Espírito de verdade” (Jo 14, 16). Com efeito, para que o Espírito seja derramado, é necessário que Jesus, realizada a sua obra, parta: “Se eu não partir, o Defensor não virá até vós; mas se eu partir, enviar-vo-lo-ei” (Jo 16, 7). A partida de Jesus é o seu regresso ao Pai.

A grande manifestação do Espírito Santo à Igreja nascente dá-se porém no Pentecostes. Segundo o texto de Act. 2, 4, “…todos ficaram repletos do Espírito Santo…”. Deu-se aqui o cumprimento da promessa de Jesus Cristo, de que não deixaria órfãos os seus discípulos. O Espírito Santo é o defensor e consolador prometido, e por Ele os discípulos darão testemunho de Cristo. É pela sua acção que a Igreja se dá a conhecer ao mundo. Os Apóstolos perdem o medo de testemunhar a sua fé em Jesus Cristo ressuscitado e lançam-se na missão de anunciar o Evangelho ao mundo, porque o Espírito Santo está com eles. É também Ele que guia a Igreja e está presente nas suas grandes decisões. Por isso se diz que o Espírito Santo é a alma da Igreja.

A missão do Espírito é introduzir-nos na comunhão com Deus. Por meio dele, o amor de Deus é derramado nos nossos corações e o Pai e o Filho passam a habitar em nós, tornamo-nos irmãos em Cristo, a ele unidos como a seu corpo, participantes da sua relação filial com o Pai, capazes de partilhar a sua caridade para com todos, co-herdeiro da sua glória.

Mas a nossa capacidade de compreensão é limitada; por isso, a missão do Espírito é introduzir a Igreja de maneira sempre nova, de geração em geração, na grandeza do mistério de Cristo (Bento XVI).

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11º Domingo do Tempo Comum (C)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 7, 36-8, 3)

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Um fariseu convidou-o para comer consigo. Jesus entrou em casa do fariseu, e pôs-se à mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que lhe está a tocar, porque é uma pecadora!» Então, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa para te dizer.» «Fala, Mestre» – respondeu ele. «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Simão respondeu: «Aquele a quem perdoou mais, creio eu.» Jesus disse-lhe: «Julgaste bem.» E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; ela, porém, banhou-me os pés com as suas lágrimas e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, e ela ungiu-me os pés com perfume. Por isso, digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama.» Depois, disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados.» Começaram, então, os convivas a dizer entre si: «Quem é este que até perdoa os pecados?» E Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz.»

Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.

Mensagem

A perspectiva fundamental deste episódio tem a ver com a definição da atitude de Jesus (e, portanto, de Deus) para com os pecadores.

A personagem central é a mulher a quem Lucas apresenta como “uma mulher da cidade que era pecadora”. Não há qualquer indicação acerca de anteriores contactos entre Jesus e esta mulher, embora possamos supor que a mulher já se tinha encontrado com Jesus e tinha percebido n’Ele uma atitude diferente dos mestres da época, sempre preocupados em evitar os pecadores notórios e em condená-los.

A acção da mulher (o choro, as lágrimas derramadas sobre os pés de Jesus, o enxugar os pés com os cabelos, o beijar os pés e ungi-los com perfume) é descrita como uma resposta de gratidão, como consequência do perdão recebido (vers. 47). A parábola que Jesus conta, a este propósito (vers. 41-42), parece significar, não que o perdão resulta do muito amor manifestado pela mulher, mas que o muito amor da mulher é o resultado da atitude de misericórdia de Jesus: o amor manifestado pela mulher nasce de um coração agradecido de alguém que não se sentiu excluído nem marginalizado, mas que, nos gestos de Jesus, tomou consciência da bondade e da misericórdia de Deus.

A outra figura central deste episódio é Simão, o fariseu. Ele representa aqueles zelosos defensores da Lei que evitavam qualquer contacto com os pecadores e que achavam que o próprio Deus não podia acolher nem deixar-Se tocar pelos transgressores notórios da Lei e da moral. Jesus procura fazê-lo entender que só a lógica de Deus – uma lógica de amor e de misericórdia – pode gerar o amor e, portanto, a conversão e a vida nova. Jesus empenha-se em mostrar a Simão que não é marginalizando e segregando que se pode obter uma nova atitude do pecador; mas que é amando e acolhendo que se pode transformar os corações e despertar neles o amor: essa é a perspectiva de Deus. O perdão não se dá a troco de amor, mas dá-se, simplesmente, sem esperar nada em troca. A reacção de Jesus não é um caso isolado, mas resulta da missão de que Ele se sente investido por Deus – atitude que Ele procurará manifestar em tantas situações semelhantes: dizer aos proscritos, aos moralmente fracassados, que Deus não os condena nem marginaliza, mas vem ao seu encontro para os libertar, para dar-lhes dignidade, para os convocar para o banquete escatológico do Reino. É esta atitude de Deus que gera o amor e a vontade de começar vida nova, inserida na lógica do Reino.

O texto que nos é proposto termina com uma referência ao grupo que acompanha Jesus: os Doze e algumas mulheres. O facto de o “mestre” Se fazer acompanhar por mulheres (Lucas é o único evangelista que refere a incorporação de mulheres no grupo itinerante dos discípulos) era algo insólito, numa sociedade em que a mulher desempenhava um papel social e religioso marginal. No entanto, manifesta a lógica de Deus que não exclui ninguém, mas integra todos – sem excepção – na comunidade do Reino. As mulheres – grupo com um estatuto de subalternidade, cujos direitos sociais e religiosos eram limitados pela organização social da época – também são integradas nessa comunidade de irmãos que é a comunidade do Reino: Deus não exclui nem marginaliza ninguém, mas a todos chama a fazer parte da sua família.

 

Ano da Fé – XLVIII

CREIO NO ESPÍRITO SANTO – I

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Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O tempo pascal, que com alegria estamos a viver guiados pela liturgia da Igreja, é por excelência o tempo do Espírito Santo doado «sem medida» (cf. Jo 3, 34) por Jesus crucificado e ressuscitado. Este tempo de graça concluir-se-á com a festa do Pentecostes, na qual a Igreja revive a efusão do Espírito sobre Maria e os Apóstolos reunidos em oração no Cenáculo.

Mas quem é o Espírito Santo? No Credo professamos com fé: «Creio no Espírito Santo que é Senhor e dá a vida». A primeira verdade à qual aderimos no Credo é que o Espírito Santo é Kyrios, Senhor. Isto significa que Ele é verdadeiramente Deus como o Pai e o Filho, objecto do mesmo acto de adoração e glorificação que dirigimos ao Pai e ao Filho. De facto, o Espírito Santo é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade; é o grande dom de Cristo Ressuscitado que abre a nossa mente e o nosso coração à fé em Jesus como o Filho enviado pelo Pai e que nos guia para a amizade e a comunhão com Deus.

Mas gostaria de reflectir principalmente sobre o facto de que o Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O homem de todos os tempos e lugares deseja uma vida plena e boa, justa e serena, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até à sua plenitude. O homem é como um viajante que, ao atravessar os desertos da vida, tem sede de água viva, jorrante e fresca, capaz de saciar profundamente o seu desejo de luz, amor, beleza e paz. Todos nós sentimos este desejo! E Jesus doa-nos esta água viva: ela é o Espírito Santo, que procede do Pai e que Jesus derrama nos nossos corações. «Vim para que tenhais vida e vida em abundância», diz-nos Jesus (Jo 10, 10).

Jesus promete à Samaritana que dará a «água viva», em abundância e para sempre, a todos aqueles que o reconhecerem como o Filho enviado pelo Pai para nos salvar (cf. Jo 4, 5-26; 3, 17). Jesus veio para nos dar esta «água viva» que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada, animada e alimentada por Deus. Quando dizemos que o cristão é um homem espiritual entendemos precisamente isto: é uma pessoa que pensa e age em conformidade com Deus, segundo o Espírito Santo. Mas pergunto-me: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos em conformidade com Deus? Ou deixamo-nos guiar por muitas outras coisas que não são propriamente Deus? Cada um deve responder a isto no profundo do seu coração.

Nesta altura podemos perguntar-nos: por que esta água pode saciar-nos profundamente? Sabemos que a água é essencial para a vida; sem água morremos; ela sacia, purifica e torna a terra fecunda. Na Carta aos Romanos encontramos esta expressão: «O amor de Deus foi derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido» (5, 5). A «água viva», o Espírito Santo, Dom do Ressuscitado que passa a habitar em nós, purifica-nos, ilumina-nos, renova-nos e transforma-nos porque nos torna partícipes da própria vida de Deus que é Amor. Por isso, o Apóstolo Paulo afirma que a vida do cristão é animada pelo Espírito e pelos seus frutos, que são «caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança» (Gl 5, 22-23). O Espírito Santo introduz-nos na vida divina como «filhos no Filho Unigénito». Noutro trecho da Carta aos Romanos, que recordámos várias vezes, são Paulo sintetiza-o com estas palavras: «Na verdade, todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, para cair de novo no temor; recebestes, pelo contrário, um espírito de adopção, pelo qual chamamos: “Abba, Pai”. O próprio Espírito atesta em união com o nosso espírito que somos filhos de Deus; filhos e igualmente herdeiros – herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo – se sofremos com Ele, é para sermos também glorificados com Ele» (8, 14-17). Este é o dom precioso que o Espírito Santo derrama nos nossos corações: a própria vida de Deus, vida de filhos verdadeiros, uma relação de intimidade, liberdade e confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um olhar novo para os outros, próximos e distantes, vistos sempre como irmãos e irmãs em Jesus, que devem ser respeitados e amados. O Espírito Santo ensina-nos a ver com os olhos de Cristo, a viver e a compreender a vida como Ele o fez . Eis por que a água viva que é o Espírito Santo sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar Deus como seus filhos e com a sua graça podemos viver como filhos de Deus, como Jesus. E nós, escutamos o Espírito Santo? O que nos diz? Diz-nos: Deus ama-te. É o que nos diz. Deus ama-te, gosta de ti. Nós amamos deveras Deus e os outros, como Jesus? Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, permitamos que Ele nos fale ao coração e nos diga: Deus é amor, Deus espera-nos, Deus é Pai, ama-nos como verdadeiro pai, ama-nos verdadeiramente e só o Espírito Santo diz isto ao nosso coração. Ouçamos o Espírito Santo, escutemos o Espírito Santo e vamos em frente por este caminho de amor, misericórdia e perdão. Obrigado!

 Papa Francisco

Ano da Fé – XLVII

A RESSURREIÇÃO DE JESUS – II

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É a partir do testemunho e da fé dos apóstolos que nós acreditamos na ressurreição de Jesus: “Este Jesus, Deus ressuscitou-o: e disso todos nós somos testemunhas” (Act 2, 32). Hoje nós acreditamos sem ter visto. Os apóstolos, esses, viram e acreditaram. Por terem visto, eles podem atestar o acontecimento da ressurreição e dar testemunho que o Ressuscitado é, de facto, Jesus de Nazaré. Mas, se eles viram, foi para que nós pudéssemos acreditar, graças ao seu testemunho.

A ressurreição é a resposta amorosa de Deus ao amor filial e fiel de Jesus, mostrando quem era o inocente e quem eram os pecadores. Pela ressurreição Deus confirmou os actos e as palavras de Jesus bem como a autoridade que ele se tinha atribuído. Manifestou que em Jesus o Reino chegou, que Aliança Nova foi selada e que Jesus é o Messias prometido, o Ungido do Senhor. Nele as promessas de Deus estão realizadas. A ressurreição é a chegada de um mundo novo anunciado pelos profetas.

A ressurreição não constituiu simplesmente um triunfo para Jesus, mas é causa da nossa salvação: “foi ressuscitado para nossa justificação” (Rom 4, 25). Recebeu o poder divino de dar a vida e tornou-se o fundador da nova humanidade, o novo Adão, que nos faz renascer como filhos de Deus e conduz o mundo à sua perfeição. A vitória sobre o mal é certa. A história encaminha-se para a salvação; a última palavra pertence à graça de Deus. Devemos sacudir de nós a tristeza e a resignação, para nos abrirmos à coragem da esperança.

O acontecimento da morte e da ressurreição de Cristo é o coração do Cristianismo, o ponto central e fundamental da nossa fé, o poderoso impulso da nossa certeza, o vento forte que afugenta toda a angústia e incerteza, a dúvida e o calculismo humano. (Bento XVI)

X Domingo do Tempo Comum (C)

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 7, 11-17)

Em seguida, dirigiu-se a uma cidade chamada Naim, indo com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. Quando estavam perto da porta da cidade, viram que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; e, a acompanhá-la, vinha muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!» E a fama deste milagre espalhou-se pela Judeia e por toda a região.

Comentário ao Evangelho

Temos aqui o episódio da ressurreição do filho de uma viúva. O milagre relatado neste texto, assim como o dos versículos anteriores, respondem à pergunta de João de Baptista a Jesus: “és Tu que hás de vir ou devemos esperar outro?” Jesus oferece a salvação (cf. Lc 7,1-10) e mostra o verdadeiro triunfo da vida (cf. Lc 7,11-17). Não é o relato em si que é o mais importante, mas o sentido que nos transmite.

Antes de mais, temos aqui uma revelação de Deus. Diante da atitude de piedade e compaixão de Jesus, neste milagre de ressurreição, vemos a exclamação do povo: “Deus visitou o seu povo”. Jesus é “um grande profeta”, não apenas porque transmite a Palavra de Deus e anuncia o reino com palavras, mas sobretudo porque veio realizar o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida.

Em seguida, vemos aqui o sentido da vida. Jesus veio criar, oferecer ao homem a alegria de uma vida aberta com todo o sentido.

Percebemos ainda todo o carácter de sinal presente no milagre. A ressurreição do filho da viúva testemunha Jesus que há de vir, cuja vida triunfa plenamente sobre a morte.

Significa que para nós, hoje como então, Deus Se encontra onde há o sentido da piedade, do amor vivificante. Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação.

Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero; ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher, é certo. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixamos visitar por este grande profeta, não temos alternativa!

 

Oração pela vida

Ó Maria, aurora do mundo novo, mãe dos viventes, confiamo-Vos a causa da vida: olhai, Mãe, para o número sem fim de crianças a quem é impedido nascer, de pobres para quem se torna difícil viver, de homens e mulheres vítimas de inumana violência, de idosos e doentes assassinados pela indiferença ou por uma suposta compaixão.

Fazei com que todos aqueles que crêem no Vosso Filho saibam anunciar, com desassombro e amor, aos homens do nosso tempo o Evangelho da vida. Alcançai-lhes a graça de o acolher como um Dom sempre novo, a alegria de o celebrar com gratidão em toda a sua existência, e a coragem para o testemunhar com laboriosa tenacidade, para construírem, juntamente com todos os homens de boa vontade, a civilização da verdade e do amor, para louvor e glória de Deus Criador e amante da vida. Amen.

João Paulo II

Ano da Fé – XLVI

A RESSURREIÇÃO DE JESUS – I

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A ressurreição de Jesus é o fundamento e o objecto por excelência da fé e da esperança cristãs. “Se Cristo não ressuscitou, não tem sentido a nossa pregação e também não tem sentido a vossa fé” – declara São Paulo (1Cor 15, 14). Os cristãos estão encarregados, no seguimento dos Apóstolos, a anunciar ao mundo esta “boa nova”: Cristo ressuscitou!

Ninguém assistiu à ressurreição de Jesus. Ela foi anunciada, primeiro, por um mensageiro de Deus, um anjo, que disse às mulheres: “Não tenhais medo; sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como tinha dito. Vinde ver o lugar onde jazia. Mas ide depressa dizer aos seus discípulos: ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis!” (Mt 28, 5-7). No primeiro dia da semana, elas foram as primeiras a vir ao túmulo e a encontrá-lo vazio; foram elas as primeiras a receber o anúncio da ressurreição.

Se ninguém assistiu à saída do túmulo, Jesus ressuscitado deu-se a ver “às testemunhas que Deus tinha antecipadamente escolhido” – como Pedro o declarará em casa de Cornélio – : “a nós que comemos e bebemos com ele depois da sua ressurreição de entre os mortos” (Act 10, 41). Os discípulos de Jesus não cessaram de atestar com força e perseverança, e mesmo com perigo da própria vida, terem visto Jesus vivo.

A ressurreição de Jesus não é um regresso ao modo de vida anterior – o nosso – estabelecido sob a lei da morte. Deste ponto de vista a ressurreição de Jesus difere radicalmente de uma ressurreição provisória, como a de Lázaro, ou a de qualquer outra pessoa, realizada por Jesus. “Ressuscitado dos mortos, Cristo já não pode morrer; a morte já não tem domínio sobre ele”(Rm 6, 9).

É sempre por iniciativa gratuita da sua parte que Jesus, do lado de lá da morte, torna o seu corpo visível a homens e mulheres que não são ressuscitados. Os relatos das aparições insistem fortemente sobre a originalidade absoluta da presença de Jesus. Ele torna-se presente e desaparece de uma maneira nova, diferente das maneiras anteriores de se encontrar com as pessoas e, todavia, é sempre ele! Deste modo os discípulos poderão atestar, de geração em geração, a identidade entre o Crucificado e o Ressuscitado.

Quem compreende a Páscoa não desespera. (Dietrich Bonhoeffer)

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9, 10-17)

Hostia

Ao regressarem, os Apóstolos contaram-lhe tudo o que tinham feito. Tomando-os consigo, Jesus retirou-se para um lugar afastado, na direcção de uma cidade chamada Betsaida. Mas as multidões, que tal souberam, seguiram-no. Jesus acolheu-as e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Ora, o dia começava a declinar. Os Doze aproximaram-se e disseram-lhe: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar, pois aqui estamos num lugar deserto.» Disse-lhes Ele: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Retorquiram: «Só temos cinco pães e dois peixes; a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo!» Eram cerca de cinco mil homens. Jesus disse aos discípulos: «Mandai-os sentar por grupos de cinquenta.» Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.

Comentário

A refeição da fracção do pão, que Jesus celebrou com os seus discípulos, é destinada ao conjunto do seu povo. O próprio Jesus significou isso alimentando a multidão que O seguia, como Deus o havia feito outrora no deserto.

Para viver, é preciso comer. E como Deus nos quer vivos, Ele próprio intervém. Como um Pai que cuida dos seus filhos, quando estes não encontram o alimento necessário. A tradição de Israel tinha guardado a memória de uma intervenção providencial, em que Deus tinha alimentado o seu povo no deserto, depois da saída do Egipto, com o maná e as codornizes (Ex 16); era um pão vindo do céu, portanto, de Deus.

Por seu lado, Jesus alimenta o povo que está quase a fracassar. Vários detalhes anunciam a Eucaristia: Jesus parte os pães e fá-los distribuir pelos seus discípulos, como na comunhão: o povo está organizado, os Apóstolos fazem o serviço, é a Igreja; no deserto, o maná era apenas suficiente, mas aqui, no banquete do Senhor, restam cestos cheios, porque o pão de Jesus é-nos oferecido generosamente, para que tenhamos a vida em abundância (Jo 10,10).

É impossível isolar a «ordem de reiteração» da Eucaristia propriamente dita de outras ordens que Jesus nos deu: muito próximo da Eucaristia, há o «exemplo» do lava-pés; há ainda o «mandamento do amor» e a necessidade primordial de amar o nosso próximo; e hoje, o apelo a darmos nós mesmos de comer àqueles que nada têm que comer. Significando já o Reino onde todos os bens superabundam, Jesus recorda que Ele quer associar desde já todos os baptizados à sua construção, ao seu anúncio. E para isso, Ele santifica-nos com a sua própria vida.

Alma de Cristo

Alma de Cristo, santificai-me. / Corpo de Cristo, salvai-me. / Sangue de Cristo, inebriai-me. / Água do lado de Cristo, lavai-me. / Paixão de Cristo, confortai-me. / Ó bom Jesus, ouvi-me. / Dentro das Vossas Chagas, escondei-me. / Não permitais que de Vós me separe. / Do espírito maligno, defendei-me. / Na hora da minha morte, chamai-me. / E mandai-me ir para Vós, / para que Vos louve com os Vossos Santos, / por todos os séculos. Amen.

Ano da Fé – XLV

O MISTÉRIO DA REDENÇÃO

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Quem provocou a morte de Jesus? Do ponto de vista histórico, a morte de Jesus foi desejada pelas autoridades hebraicas e romanas do tempo, e pela multidão de Jerusalém habilmente manipulada. Não por todos os hebreus de então e muito menos pelos das gerações seguintes.

Mas as causas históricas não explicam adequadamente a cruz de Cristo. A nível diferente, todos os homens são responsáveis por ela. Aqueles poucos que, em grau variável, a provocaram directamente são apenas os representantes do pecado, radicado em todos os homens, em todos os povos e em todas as épocas: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Cor 15, 3). “Segundo as Escrituras” significa segundo o projecto de Deus escondido no Antigo Testamento. Por trás da morte de Jesus está, pois, um desígnio de Deus, um desígnio de amor, a que a fé da Igreja chama mistério da redenção. Tal como o antigo Israel foi liberto da escravidão do Egipto para receber o dom da aliança e da Terra prometida, assim toda a humanidade é redimida, isto é, liberta da escravidão do pecado e introduzida no Reino de Deus. Surpreendendo todas as expectativas humanas, Deus revela-se na fraqueza e na loucura da cruz como amor sem medida; abraça, por meio do Crucificado, aqueles que se encontram longe d’Ele; e, por fim, subordina a morte de Jesus à salvação dos pecadores, por meio da gloriosa ressurreição.

O mistério da redenção, segundo o Novo Testamento, é mistério de amor. Deus é em si mesmo perfeitíssimo, feliz e imutável. Não pode diminuir, nem crescer, nem perder, nem adquirir. É por amor completamente livre e gratuito que chama à vida as criaturas e que concede a sua Aliança. O homem, criado livre, fecha-se, com o pecado, ao amor e aos dons de Deus. O pecado ofende a Deus e provoca-lhe um misterioso “sofrimento”, que, segundo a Bíblia, é amargura e desilusão, ciúme, ira e, sobretudo, compaixão. No seu amor sempre fiel, na sua misericórdia sem limites, “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Cristo acolhe livremente a iniciativa do Pai. Partilha a atitude misericordiosa do Pai, a sua vontade, e o seu projecto. Entregou-se aos homens sem reservas, confiou-se às suas mãos, sem recuar perante a sua hostilidade, tomando sobre si o peso do seu pecado. Assim viveu e testemunhou na sua carne a fidelidade incondicional do amor de Deus à humanidade pecadora.

Os demónios não são os que O crucificaram, mas tu, que, juntamente com eles, O crucificaste e continuamente crucificas, quando te comprazes nos vícios e no pecado. (São Francisco de Assis)

Solenidade da Santíssima Trindade (C)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 16, 12-15)

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12«Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. 14Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. 15Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: ‘Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer’.»

Mensagem

O tema fundamental desta leitura tem a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo. Jesus começa por dizer aos discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que ouvir a Jesus e que interpretará o que está para vir (vers. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?

De forma nenhuma. As palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.

Aonde irá o Espírito buscar essa verdade que vai transmitir continuamente aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.

A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.

Algumas perguntas

Hoje existe um grande perigo que ameaça as comunidades cristãs. Estamos a cair na tentação de dividir Jesus, seguindo ou a um Jesus homem que com o seu agir mudou a história ou a um Jesus glorioso separado da sua existência terrena e, portanto, da nossa?

Estamos conscientes de que Jesus não é só um exemplo do passado mas é também, e sobretudo, o Salvador que está presente hoje no meio de nós? Que Jesus não é só objecto de contemplação e alegria mas o Messias com quem é preciso colaborar através do seu seguimento e da sua obra?

Deus não é uma abstracção, mas o Pai faz-se visível em Jesus. Empenhas-te em “vê-lo” e reconhecê-lo na humanidade de Jesus?

Estás atento ao Espírito da verdade que te comunica a verdade total acerca de Jesus?

Ano da Fé – XLIV

A DESCIDA AOS INFERNOS

The-Entombment

Conforme afirma a fé da Igreja formulada no “Credo apostólico”, Jesus ao morrer “desceu aos infernos”. O que significa esta expressão um tanto obscura? Os infernos são a morada simbólica dos defuntos. No tempo de Jesus considerava-se que aí havia lugares e condições diferentes para os justos e para os maus, enquanto uns e outros esperavam a recompensa plena no juízo final.

Jesus foi ter com os mortos “pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte” (1Pe 3, 1; Ef 4, 9-10) e em seguida ressuscitou dos mortos. Foi ao encontro dos mortos como Salvador, levou-lhes os benefícios da sua morte redentora. O sentido desta fé neotestamentária resume-se em três afirmações: Jesus morreu de verdade; a sua morte redentora tem valor salvífico para todos os homens, mesmo para os que viveram antes dele; o seu encontro com os justos, que já tinham morrido, comunica-lhes a plenitude da comunhão com Deus. Definitivamente, a descida aos infernos, mais do que a sujeição à morte, é vitória sobre ela.