3º Domingo da Quaresma – Ano C

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 4, 5-42)

Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!» Disse-lhe a mulher: «Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo. Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?»

Replicou-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai, chama o teu marido e volta cá.» A mulher retorquiu-lhe: «Eu não tenho marido.»

Declarou-lhe Jesus: «Disseste bem: ‘não tenho marido’, pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.» Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» Disse-lhe a mulher: «Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir. Quando vier, há-de fazer-nos saber todas as coisas.» Jesus respondeu-lhe: «Sou Eu, que estou a falar contigo.»

Nisto chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele estar a falar com uma mulher. Mas nenhum perguntou: ‘Que procuras?’, ou: ‘De que estás a falar com ela?’ Então a mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àquela gente: «Eia! Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» Eles saíram da cidade e foram ter com Jesus.

Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Rabi, come.» Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis.» Então os discípulos começaram a dizer entre si: «Será que alguém lhe trouxe de comer?» Declarou-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra. Não dizeis vós: ‘Mais quatro meses e vem a ceifa’? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: ‘um é o que semeia e outro o que ceifa’. Porque Eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.»

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele devido às palavras da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz.» Por isso, quando os samaritanos foram ter com Jesus, começaram a pedir-lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Então muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação, e diziam à mulher: «Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.

 

Mensagem

 

O Evangelho de hoje apresenta-nos o encontro de Jesus com a mulher samaritana, que aconteceu em Sicar, junto de um antigo poço onde a mulher ia todos os dias buscar água. Naquele dia, encontrou lá Jesus, sentado, «cansado devido à viagem». Ele diz-lhe imediatamente: «Dá-me de beber». Deste modo supera as barreiras de hostilidade que existiam entre judeus e samaritanos e rompe os esquemas do preconceito em relação às mulheres. Jesus não tem medo.

A sede de Jesus não era tanto de água, quanto de encontrar a samaritana para lhe abrir o coração: pede-lhe de beber para evidenciar a sede que havia nela mesma. A mulher comove-se com este encontro: dirige a Jesus aquelas perguntas profundas que todos temos dentro, mas que muitas vezes ignoramos. Também nós temos tantas perguntas para fazer, mas não encontramos a coragem de as dirigir a Jesus! O exemplo da samaritana convida-nos a expressar-nos do seguinte modo: «Jesus, dá-me aquela água que me saciará eternamente».

O Evangelho diz que os discípulos ficaram surpreendidos que o seu Mestre falasse com aquela mulher. Mas o Senhor é superior aos preconceitos, e por isso não receou falar com a samaritana: a misericórdia é maior do que o preconceito! O resultado daquele encontro junto do poço foi que a mulher se transformou: «deixou a sua ânfora», com a qual ia buscar água, e foi depressa à cidade contar a sua experiência extraordinária. «Encontrei um homem que me disse todas as coisas que eu fiz. Será o Messias?». Estava entusiasmada. Tinha ido buscar água ao poço, e encontrou outra água, a água viva que jorra para a vida eterna. Encontrou a água que procurava desde sempre! Corre à aldeia, àquela aldeia que a julgava, a condenava e a rejeitava, e anuncia que encontrou o Messias: alguém que lhe mudou a vida. Porque cada encontro com Jesus muda-nos a vida, sempre. Cada encontro com Jesus enche-nos de alegria, aquela alegria que vem de dentro, que transborda, e passa aos outros, pelo testemunho da nossa vida de união com Jesus que primeiro teve sede de nós e nos pediu de beber para abrir as portas fechadas da solidão e do medo da nossa vida (Resumo da alocução do Papa Francisco no  Angelus de 23 de Março de 2014).

Palavra para o caminho

 

No encontro com a samaritana no poço, sobressai o tema da «sede» de Cristo, que culmina com o seu brado na cruz: «Tenho sede». Esta sede tem uma base física. Mas Jesus, como diz Santo Agostinho, «tinha sede da fé daquela mulher», assim como da fé de todos nós. Deus Pai enviou-o para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. A omnipotência do Amor respeita sempre a liberdade do homem; bate à porta do seu coração e aguarda com paciência a sua resposta.

 

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Ano da Fé – XLIX

CREIO NO ESPÍRITO SANTO- III

PELIGROSO "GUSTAV" SIGUE FORTALECIÉNDOSE POCO A POCO ANTES DE LLEGAR A CUBA

O Espírito Santo vai-se manifestando discretamente, até se revelar em força nos momentos mais decisivos da história da salvação. No Antigo Testamento, «o Espírito Santo, como pessoa, está encoberto», como diz o Papa João Paulo II na sua Encíclica Dominum et Vivificantem (cf. n.º 15). Irrompe no Novo Testamento, depois de o Filho consumar a sua obra de salvação. De facto, como podemos verificar, no Antigo Testamento predomina a figura do Pai; no Novo Testamento predomina a figura do Filho e ao mesmo tempo abre-se o caminho à acção do Espírito Santo na Igreja. Assim se torna explícita a existência da Santíssima Trindade, presente desde o princípio na obra da criação. O Espírito Santo é uma pessoa, mas para se falar dele usa-se a linguagem dos símbolos, que evidenciam aquilo que Ele faz. Eis alguns desses símbolos:

Vento, sinal da força de Deus: o vento destrói obstáculos que pareciam intransponíveis (Act 2, 2) e é símbolo da força, acção e dinamismo de Deus, que se manifestam logo na criação (cf. Gn 1, 2) e depois actuam nos profetas (Ez 1, 4) e nos Apóstolos (Act 2, 2).

Hálito, alma (alento vital) do homem: Gn 2, 7.

Água: os rios de água viva de que fala Jesus em Jo 7, 38 são o símbolo da vida nova no Espírito Santo: “Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado” (Jo 7, 39).

A pomba é o sinal da simplicidade, da liberdade e da paz, do calor e da vida, e do mistério de Deus. Conforme a pomba que pousa na arca de Noé (Gn 8, 6-12) anuncia a nova humanidade, também aquela que aparece no Baptismo de Jesus (Mt 3, 16) anuncia que Ele é o iniciador da nova criação, o que baptiza no Espírito Santo.

O fogo significa, na Bíblia, a presença amorosa e activa de Deus no meio do seu povo. É sinal de insatisfação, de inquietação, de purificação (Is 6, 6-7; Ez. 1, 4) e entrega à missão, sobretudo ao ministério da Palavra (cf. Act 4, 8. 20: a ânsia de proclamar a Palavra é como um fogo que queima). Por isso em Act 2, 3 o Espírito Santo desce em forma de línguas de fogo.

A acção do Espírito Santo não se opõe à acção de Cristo, mas vem depois dele e graças a ele «para continuar no mundo, mediante a Igreja, a obra da Boa Nova da salvação» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 3). Assim, «o Espírito Santo fará com que perdure sempre na Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos ouviram do seu Mestre» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º4).

A sua acção concretiza-se em favor de cada pessoa individual, e em favor da Igreja. O Espírito Santo e as suas inspirações não são propriedade privada de ninguém, mas é em confronto com a Igreja que nós devemos avaliar os carismas que o Espírito vai suscitando em cada pessoa.

O Espírito Santo é o Espírito da Verdade. É no seu testemunho que «o testemunho humano dos Apóstolos encontrará o seu mais forte sustentáculo» (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 5). Assim o Espírito Santo não ensina nada diferente do que Jesus Cristo ensinou, mas pelo contrário, assegura de modo duradouro a transmissão e irradiação da Boa Nova revelada por Jesus de Nazaré (cf. Dominum et Vivificantem, n.º 7).

Portanto, quem pede: «Vem, Espírito Santo!», tem de estar preparado para dizer: «Vem e incomoda-me onde tenho de ser incomodado!» (Wilhems Stählin).

Ano da Fé – XLVIII

CREIO NO ESPÍRITO SANTO – II

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Significativamente, o Espírito é mencionado na abertura e encerramento da Bíblia. Toda a história, desde a criação até à realização final, se desenrola sob o influxo do poderoso “sopro” de Deus. O Espírito é a omnipotência do amor com que Deus realiza o seu projecto no mundo: que produz as coisas, dá a vida, suscita os profetas, justifica os pecadores, faz ressuscitar os mortos.

No Novo Testamento, com a vinda e a obra de Jesus, o Espírito de Deus está presente. O anjo da Anunciação anuncia que o Espírito virá sobre a Virgem Maria, de tal modo que aquele que vai nascer dela “será santo e chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35). Mais tarde, no baptismo de Jesus, os céus abrem-se e Jesus vê o Espírito de Deus descer como uma pomba sobre ele (cf. Mt 3, 16). É o Espírito que o conduz ao deserto e é pela força do Espírito que resiste ao tentador. Toda a sua acção, a autoridade da sua Palavra, os milagres como os gestos mais simples que ele realiza, são obra deste Espírito que Deus lhe dá “sem medida” (Jo 3, 34).

Este Espírito, Jesus prometeu-o aos seus discípulos no momento de os deixar: “Pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Defensor que estará sempre convosco: o Espírito de verdade” (Jo 14, 16). Com efeito, para que o Espírito seja derramado, é necessário que Jesus, realizada a sua obra, parta: “Se eu não partir, o Defensor não virá até vós; mas se eu partir, enviar-vo-lo-ei” (Jo 16, 7). A partida de Jesus é o seu regresso ao Pai.

A grande manifestação do Espírito Santo à Igreja nascente dá-se porém no Pentecostes. Segundo o texto de Act. 2, 4, “…todos ficaram repletos do Espírito Santo…”. Deu-se aqui o cumprimento da promessa de Jesus Cristo, de que não deixaria órfãos os seus discípulos. O Espírito Santo é o defensor e consolador prometido, e por Ele os discípulos darão testemunho de Cristo. É pela sua acção que a Igreja se dá a conhecer ao mundo. Os Apóstolos perdem o medo de testemunhar a sua fé em Jesus Cristo ressuscitado e lançam-se na missão de anunciar o Evangelho ao mundo, porque o Espírito Santo está com eles. É também Ele que guia a Igreja e está presente nas suas grandes decisões. Por isso se diz que o Espírito Santo é a alma da Igreja.

A missão do Espírito é introduzir-nos na comunhão com Deus. Por meio dele, o amor de Deus é derramado nos nossos corações e o Pai e o Filho passam a habitar em nós, tornamo-nos irmãos em Cristo, a ele unidos como a seu corpo, participantes da sua relação filial com o Pai, capazes de partilhar a sua caridade para com todos, co-herdeiro da sua glória.

Mas a nossa capacidade de compreensão é limitada; por isso, a missão do Espírito é introduzir a Igreja de maneira sempre nova, de geração em geração, na grandeza do mistério de Cristo (Bento XVI).

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 9, 10-17)

Hostia

Ao regressarem, os Apóstolos contaram-lhe tudo o que tinham feito. Tomando-os consigo, Jesus retirou-se para um lugar afastado, na direcção de uma cidade chamada Betsaida. Mas as multidões, que tal souberam, seguiram-no. Jesus acolheu-as e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam. Ora, o dia começava a declinar. Os Doze aproximaram-se e disseram-lhe: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar, pois aqui estamos num lugar deserto.» Disse-lhes Ele: «Dai-lhes vós mesmos de comer.» Retorquiram: «Só temos cinco pães e dois peixes; a não ser que vamos nós mesmos comprar comida para todo este povo!» Eram cerca de cinco mil homens. Jesus disse aos discípulos: «Mandai-os sentar por grupos de cinquenta.» Assim procederam e mandaram-nos sentar a todos. Tomando, então, os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos discípulos, para que os distribuíssem à multidão. Todos comeram e ficaram saciados; e, do que lhes tinha sobrado, ainda recolheram doze cestos cheios.

Comentário

A refeição da fracção do pão, que Jesus celebrou com os seus discípulos, é destinada ao conjunto do seu povo. O próprio Jesus significou isso alimentando a multidão que O seguia, como Deus o havia feito outrora no deserto.

Para viver, é preciso comer. E como Deus nos quer vivos, Ele próprio intervém. Como um Pai que cuida dos seus filhos, quando estes não encontram o alimento necessário. A tradição de Israel tinha guardado a memória de uma intervenção providencial, em que Deus tinha alimentado o seu povo no deserto, depois da saída do Egipto, com o maná e as codornizes (Ex 16); era um pão vindo do céu, portanto, de Deus.

Por seu lado, Jesus alimenta o povo que está quase a fracassar. Vários detalhes anunciam a Eucaristia: Jesus parte os pães e fá-los distribuir pelos seus discípulos, como na comunhão: o povo está organizado, os Apóstolos fazem o serviço, é a Igreja; no deserto, o maná era apenas suficiente, mas aqui, no banquete do Senhor, restam cestos cheios, porque o pão de Jesus é-nos oferecido generosamente, para que tenhamos a vida em abundância (Jo 10,10).

É impossível isolar a «ordem de reiteração» da Eucaristia propriamente dita de outras ordens que Jesus nos deu: muito próximo da Eucaristia, há o «exemplo» do lava-pés; há ainda o «mandamento do amor» e a necessidade primordial de amar o nosso próximo; e hoje, o apelo a darmos nós mesmos de comer àqueles que nada têm que comer. Significando já o Reino onde todos os bens superabundam, Jesus recorda que Ele quer associar desde já todos os baptizados à sua construção, ao seu anúncio. E para isso, Ele santifica-nos com a sua própria vida.

Alma de Cristo

Alma de Cristo, santificai-me. / Corpo de Cristo, salvai-me. / Sangue de Cristo, inebriai-me. / Água do lado de Cristo, lavai-me. / Paixão de Cristo, confortai-me. / Ó bom Jesus, ouvi-me. / Dentro das Vossas Chagas, escondei-me. / Não permitais que de Vós me separe. / Do espírito maligno, defendei-me. / Na hora da minha morte, chamai-me. / E mandai-me ir para Vós, / para que Vos louve com os Vossos Santos, / por todos os séculos. Amen.

Ano da Fé – XLV

O MISTÉRIO DA REDENÇÃO

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Quem provocou a morte de Jesus? Do ponto de vista histórico, a morte de Jesus foi desejada pelas autoridades hebraicas e romanas do tempo, e pela multidão de Jerusalém habilmente manipulada. Não por todos os hebreus de então e muito menos pelos das gerações seguintes.

Mas as causas históricas não explicam adequadamente a cruz de Cristo. A nível diferente, todos os homens são responsáveis por ela. Aqueles poucos que, em grau variável, a provocaram directamente são apenas os representantes do pecado, radicado em todos os homens, em todos os povos e em todas as épocas: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Cor 15, 3). “Segundo as Escrituras” significa segundo o projecto de Deus escondido no Antigo Testamento. Por trás da morte de Jesus está, pois, um desígnio de Deus, um desígnio de amor, a que a fé da Igreja chama mistério da redenção. Tal como o antigo Israel foi liberto da escravidão do Egipto para receber o dom da aliança e da Terra prometida, assim toda a humanidade é redimida, isto é, liberta da escravidão do pecado e introduzida no Reino de Deus. Surpreendendo todas as expectativas humanas, Deus revela-se na fraqueza e na loucura da cruz como amor sem medida; abraça, por meio do Crucificado, aqueles que se encontram longe d’Ele; e, por fim, subordina a morte de Jesus à salvação dos pecadores, por meio da gloriosa ressurreição.

O mistério da redenção, segundo o Novo Testamento, é mistério de amor. Deus é em si mesmo perfeitíssimo, feliz e imutável. Não pode diminuir, nem crescer, nem perder, nem adquirir. É por amor completamente livre e gratuito que chama à vida as criaturas e que concede a sua Aliança. O homem, criado livre, fecha-se, com o pecado, ao amor e aos dons de Deus. O pecado ofende a Deus e provoca-lhe um misterioso “sofrimento”, que, segundo a Bíblia, é amargura e desilusão, ciúme, ira e, sobretudo, compaixão. No seu amor sempre fiel, na sua misericórdia sem limites, “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Cristo acolhe livremente a iniciativa do Pai. Partilha a atitude misericordiosa do Pai, a sua vontade, e o seu projecto. Entregou-se aos homens sem reservas, confiou-se às suas mãos, sem recuar perante a sua hostilidade, tomando sobre si o peso do seu pecado. Assim viveu e testemunhou na sua carne a fidelidade incondicional do amor de Deus à humanidade pecadora.

Os demónios não são os que O crucificaram, mas tu, que, juntamente com eles, O crucificaste e continuamente crucificas, quando te comprazes nos vícios e no pecado. (São Francisco de Assis)

Solenidade da Santíssima Trindade (C)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 16, 12-15)

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12«Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. 13Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a Verdade completa. Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. 14Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer. 15Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que Eu disse: ‘Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer’.»

Mensagem

O tema fundamental desta leitura tem a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em caminhada pelo mundo. Jesus começa por dizer aos discípulos que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento (vers. 12). Será o “Espírito da verdade” que guiará os discípulos para a verdade, que comunicará tudo o que ouvir a Jesus e que interpretará o que está para vir (vers. 13). Isto significa que Jesus não revelou tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação/libertação ficou incompleta?

De forma nenhuma. As palavras de Jesus acerca da acção do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, ao tempo que vai desde a morte de Jesus até à “parusia”. Como será possível aos discípulos, no tempo da Igreja, continuar a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela? A resposta de Jesus é: “pelo Espírito da verdade, que fará com que a minha proposta continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e no coração de cada crente; além disso, o Espírito ensinar-vos-á a entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das circunstâncias concretas diante das quais a vida vos vai colocar, como proceder para continuar fiel às minhas propostas”. O Espírito não apresentará uma doutrina nova, mas fará com que a Palavra de Jesus seja sempre a referência da comunidade em caminhada pelo mundo e que essa comunidade saiba aplicar a cada circunstância nova que a vida apresentar, a proposta de Jesus.

Aonde irá o Espírito buscar essa verdade que vai transmitir continuamente aos discípulos? A resposta é: ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – vers. 14). Assim, Jesus continuará em comunhão, em sintonia com os discípulos, comunicando-lhes a sua vida e o seu amor. Tal é a função do Espírito: realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história.

A última expressão deste texto (vers. 15) sublinha a comunhão existente entre o Pai e o Filho. Essa comunhão atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, proposto nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por acção do Espírito.

Algumas perguntas

Hoje existe um grande perigo que ameaça as comunidades cristãs. Estamos a cair na tentação de dividir Jesus, seguindo ou a um Jesus homem que com o seu agir mudou a história ou a um Jesus glorioso separado da sua existência terrena e, portanto, da nossa?

Estamos conscientes de que Jesus não é só um exemplo do passado mas é também, e sobretudo, o Salvador que está presente hoje no meio de nós? Que Jesus não é só objecto de contemplação e alegria mas o Messias com quem é preciso colaborar através do seu seguimento e da sua obra?

Deus não é uma abstracção, mas o Pai faz-se visível em Jesus. Empenhas-te em “vê-lo” e reconhecê-lo na humanidade de Jesus?

Estás atento ao Espírito da verdade que te comunica a verdade total acerca de Jesus?

Domingo de Pentecostes (C)

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 14, 15-16.23-26)

«Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco. Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. Quem não me tem amor não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas é do Pai, que me enviou. Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse.»

Para ler o comentário ao Evangelho do Domingo de Pentecostes, Ano C, consulte: http://www.ordem-do-carmo.pt/index.php/lectio-divina.html

Domingo da Ascensão do Senhor (C)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24, 46-53)

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E disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.» Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu. E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus.

Mensagem

O nosso texto está dividido em duas partes: despedida dos discípulos (vers. 46-49) e ascensão (vers. 50-53). Na primeira parte temos, portanto, as palavras de despedida de Jesus. Os discípulos que fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas, a pregar a conversão (“metanoia” – a transformação radical da vida, da mentalidade, dos valores) e o perdão dos pecados (ou seja, o anúncio de que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a auto-suficiência para iniciarem uma vida de Homens Novos). Para esta tarefa ingente, os discípulos contam com a ajuda e a assistência do Espírito. Temos também, aqui, todos os elementos daquilo que será a futura missão da Igreja. O testemunho apostólico terá como tema central a morte e ressurreição de Jesus, o Messias libertador anunciado pelas Escrituras (vers. 44.46). Desde Jerusalém, esta proposta deve ser anunciada a todas as nações. Este “percurso” será explicitado no livro dos “Actos”.

Na segunda parte, Lucas descreve a ascensão, situada em Betânia. Há duas indicações de Lucas que importa realçar. A primeira é a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai: essa bênção sugere um dom que vem de Deus e que afecta positivamente toda a vida e toda a acção dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus. A segunda é a alegria dos discípulos: a alegria é o grande sinal messiânico e escatológico; indica que o mundo novo já começou, pois o projecto salvador e libertador de Deus está em marcha.

Actualização

A ressurreição/ascensão de Jesus convida-nos a ver a vida com outros olhos – os olhos da esperança. Diz-nos que o sofrimento, a perseguição, o ódio, a morte, não são a última palavra para definir o quadro do nosso caminho; diz-nos que no final de um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas consequências, está a vida definitiva, a vida de comunhão com Deus. Esta esperança permite-nos enfrentar o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e permite-nos olhar com serenidade para esse qualquer coisa de novo que nos espera, para esse futuro de vida plena que é o nosso destino final.

A ascensão de Jesus e, sobretudo, as palavras finais de Jesus, que convocam os discípulos para a missão, sugerem a nossa responsabilidade na construção desse mundo novo onde habita a justiça e a paz; sugerem que a proposta libertadora que Jesus fez a todos os homens está agora nas nossas mãos e que é nossa responsabilidade torná-la realidade; sugerem que nós, os seguidores de Jesus, temos de construir, com o esforço de todos os dias, o novo céu e a nova terra. Sentimos, de facto, esta responsabilidade? Preocupamo-nos em tornar realidade no mundo os gestos libertadores de Cristo? Procuramos construir, no dia a dia, esse mundo novo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz?

A alegria que brilha nos olhos e nos corações desses discípulos que testemunham a entrada definitiva de Jesus na vida de Deus tem de ser uma realidade que transparece na nossa vida. Os seguidores de Jesus, iluminados pela fé, têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que os espera, no final do caminho, a vida em plenitude; e têm de testemunhar, com a sua alegria, a certeza de que o projecto salvador e libertador de Deus está a actuar no mundo, está a transformar os corações e as mentes, está a fazer nascer, dia a dia, o Homem Novo.

Ano da Fé – XXXVII

OS MILAGRES DE JESUS – I

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No Antigo Testamento, os acontecimentos prodigiosos do Êxodo e, em geral, os milagres realizados por Deus e pelos seus enviados atestam a presença salvífica do Senhor na história do seu povo. No Novo Testamento, esses factos extraordinários são chamados “milagres (obras poderosas), prodígios e sinais” (Act 2, 22). Obras poderosas, porque manifestam o poder criador de Deus; prodígios, porque são acontecimentos extraordinários e inexplicáveis, que provocam a admiração das pessoas; sinais, porque no contexto da pregação evangélica transmitem um significado preciso: a chegada do Reino de Deus.

Os milagres são gestos através dos quais Deus nos fala. Dirigem-se sempre às pessoas, ou porque lhes dizem directamente respeito, como as curas dos doentes, ou, pelo menos, lhes trazem alguns benefícios materiais e espirituais, como sucede na multiplicação dos pães e em outras transformações da natureza.

Jesus de Nazaré, coerente com a sua missão de Messias-Servo, firme ao repelir as tentações da riqueza, do êxito e do poder, nunca se serve dos milagres para seu interesse pessoal. Tal como ensina com autoridade, assim realiza os milagres com autoridade, em seu próprio nome: ”Eu te ordeno” (Mc 5, 41).

O significado dos milagres é múltiplo. Deus tornou-se presente de uma forma nova, para vencer o pecado, a doença, a morte e todas as formas de mal, a fim de dar ao homem a salvação integral, espiritual, corporal, social e cósmica, agora como antecipação e depois, no final da história, em plenitude, fazendo “novas todas as coisas” (Ap 21, 5). O povo, perante estes gestos divinos é chamado a acreditar e a converter-se. Contudo, por vezes,  Jesus manifestou relutância em realizar milagres. Esta recusa tem um significado específico: ele quer evitar que as pessoas instrumentalizem Deus em função dos seus interesses imediatos. Para quem não procura a comunhão com Deus mas apenas os seus benefícios, o milagre torna-se alienante. Jesus exige, pelo menos, uma fé inicial, uma abertura ao mistério.